O muro caiu e a USP ficará mais preta

Por Fábio Nogueira

A USP ficará mais preta

A USP ficará mais preta / Fonte: internet

Foi mais de uma década de encontros e desencontros, batendo na sala da Reitoria. Uns reitores com frieza fazendo ouvido de mercador, outros com cinismo do tipo tanto faz, tanto fez e outros solidário. As portas da maior e mais importante universidade pública da América do Sul vão se abrir finalmente aos quem também têm direito a ela. A USP fará o primeiro vestibular da sua história com a política de cota racial e escolas públicas, ambas Ações Afirmativas.

A USP relutou a adotar essa política de inclusão. Não eram mais aceitáveis as tais desculpas de que a instituição não estava preparada para receber esta nova demanda de alunos negros, indígenas e pobres em geral. Os resultados positivos de outras universidades mostraram que não havia mais desculpas para a Universidade de São Paulo. Até os professores fizeram um abaixo assinado em defesa desta iniciativa.

Os resultados têm sido acima das expectativas. No início da primeira década do século XXI, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira a adotar a cota racial. Com ela vieram medos e incertezas. Havia a previsão do caos e do terror, as notícias de conflitos raciais já eram anunciadas junto à evasão de alunos cotistas, assim como uma “queda“ na qualidade do ensino de excelência . Era somente terror para os ingênuos, medrosos e cabeças pequenas, aqueles que têm preguiça de pensar.

Não me importo mais com quem é contra. A partir de agora toda a comunidade uspiana de docentes e alunos passa a conhecer o outro lado da diferença, que no fundo beneficiará a todos. Só temos a ganhar.
A Pontíficia Universidade Católica (PUC) foi a primeira instituição de ensino superior a trabalhar com as políticas de ações afirmativas, ainda na metade da década de 90. Mais de vinte anos se passaram e a PUC continua com sua qualidade.

Quando houve o primeiro manifesto anti-cotas, há dez anos, imediatamente muitos se manifestaram a favor e dentre os quais professores renomados da USP. Por que adiaram por uma década e meia?
Vão argumentar em defesa da velha e mofada meritocracia. A desumanidade e imoralidade deste conceito é um insulto aos que lutam por igualdade. Se não houvesse necessidade da política, seria outra história. Não há justificativa para protelar mais e mais.

Outra justificativa e com consenso de ambos os lados é a melhoria do ensino público. Meu sobrinho foi cria da escola pública igual a mim. Se preparou num Pré Vestibular Comunitário (PVC) e foi cotista da UERJ. Hoje ele é professor num dos mais renomados colégios da cidade. Não furtamos o desejo dele de cursar uma faculdade.

Claro que desejamos um ensino de ótima qualidade e inclusão, através do qual a escola deixaria de ser um fardo para se tornar mais agradável a todos.

Existem algumas observações a fazer:

A) Reconhecer a luta árdua dos professores da rede pública, que incentivam os alunos a entrar nas universidades através das políticas de ações afirmativas. Sempre lembrando que o poder público é incapaz de não mostrar o caminho das pedras, para o aluno obter o desejo de entrar numa universidade.
Outro ponto a destacar é o papel que vêm desempenhando os chamados PVC ( pré-vestibulares comunitários),voltados aos alunos de baixa renda e em especial a população negra. No que eu estudo, toda a grade curricular é incluída.

Há nesses PVC professores e alunos universitários abnegados, que dão apoio pedagógico e, além de tudo, trabalham o auto estima desses alunos que muitas vezes não encontram esperança para o amanhã .

B) Muitas vezes esses cursos precisam trabalhar no improviso, mas a dedicação de todos os envolvidos nesta causa é primordial. Na verdade, eles são o centro nuclear das políticas de cotas. Outros atores sociais importantes nesta causa são os movimentos sociais e os movimentos negros, em destaque a Educafro (Educação, Cidadania para afro-descendentes e carentes). O coordenador Geral, Frei David Raimundo, é o personagem central da luta. Foi ele junto a outros defensores da igualdade racial, como Abdias do Nascimento, que acreditaram nesta luta.

Agora podemos dizer que a USP aderiu à ousadia.

Eu sinto-me orgulhoso da luta. Entrei de cabeça sem ter a noção da dimensão que representava. Valeu e todos saíram vitoriosos.

* Matéria publicada  pelo site Fazendo Média.

* Fabio Nogueira é estudante de história da Universidade Castelo Branco e militante da Educafro.

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