Terceira oficina do Alemão, discutindo o Complexo de situações do seu território

O Complexo do Alemão sendo discutido por moradores das distintas comunidades da região / Fonte: Territórios em Movimento

No dia 05 de abril, moradores do Complexo do Alemão e pesquisadores do LTM (Laboratório Territorial de Manguinhos) da Fio Cruz, se reuniram para realizar a terceira oficina de debate sobre os impactos do PAC Favela na região.

A oficina, realizada na sede do Instituto Raízes em Movimentos, trouxe para o centro da discussão o tema habitação, tendo como referência as tragédias causadas pelas fortes chuvas em dezembro do ano passado, que deixaram moradores desabrigados ou em situação de risco.

Antes dos trágicos acontecimentos do final do ano, o recorte temático do Complexo do Alemão era mobilidade urbana, sendo o teleférico o ponto de partida de reflexão crítica acerca dos problemas comunitários nos territórios do Complexo – por ser uma proposta do Governo, imposta as comunidades, que não atende as necessidades de locomoção dos moradores. ¹

Estação como destaque político no alto da Alvorada / Fonte: Territórios em Movimento

Mesmo mudando o tema de debate da oficina, o teleférico surgiu nas falas dos moradores enquadrado numa situação de contraste: uma mega construção em meio a habitações com problemas de infraestrutura e sob o risco de desabamento. Raphael Calazans, chama atenção para o fato de “as áreas de risco serem próximas ao teleférico”. Ou seja, o Estado constrói sem fazer uma intervenção de mudança na qualidade de vida do morador.

Após as tragédias que se sucederam em dezembro, a equipe do Territórios em Movimento, que atua no Complexo, concentrou o trabalho de pesquisa na elaboração do mapeamento de casas em risco e de famílias desabrigadas, que buscaram refúgio nos abrigos. Os números levantados no mapeamento são impressionantes, como no caso das Palmeiras, onde 97 famílias ficaram desabrigadas.

Junto a falta de conhecimento das pessoas, que não sabem como proceder nessas situações, a burocratização dos órgãos públicos – que deveriam amenizar os transtornos de quem perdeu a casa ou de quem está em situação de risco – é outro quesito agravante. Dona Cleide destacou que “nas casinhas (Comunidade) as residências em risco já foram interditadas pela Defesa Civil, mas que não foi apresentada nenhuma medida de solução para esses moradores. E que, quando ligam diante do risco causado pelas chuvas, eles alegam que aquela região já está interditada”.

Outra senhora, contou a situação crítica em que vive: a residência dela está entre outras duas casas que já desabaram e ela não recebeu nenhuma proposta de solução para  o seu problema. Ela só recebeu um comunicado da Defesa Civil informando que a área em que vive é de risco, com casas sob o efeito dominó; como ela não tem recurso, é obrigada a viver em situação de risco, ficando acordada em noites chuvosas para não ser surpreendida pela morte.

O problema de abastecimento de água também foi apontado na oficina.  Léo, morador do morro do Adeus, relatou o problema que vive em casa, sem receber fornecimento de água a 10 meses. Mesmo sem abastecimento, as contas chegam com um valor preestabelecido de 130 reais. Valor que era pago antes dessa falta d’água constante.

Caixa d'água da Matinha construída pelo PAC: Vazia como as propostas políticas para comunidade / Fonte: Territórios em Movimento

Considerando o abastecimento de água importante para promover a dignidade humana, o mapeamento apresentado na oficina, também levantou o mapa das águas – destacando os reservatórios comunitários de água – assim como os pontos de coleta de lixo, essencial para promoção da saúde.  O mapeamento faz uma releitura histórica, desde as bicas onde os moradores buscavam água para necessidades básicas de higiêne, passando pelas cisternas (desativadas), chegando as construções das caixas d’água, com as seguintes informações: as caixas construídas na década de 80 estão em atividade até hoje, já as construídas pelo PAC na Matinha e na Palmeiras  não funcionam.

Para Léo, “tudo é uma grande maquiagem. Caixa d’água que não abastece é como UPA sem médicos e escolas sem professores… só serve para ganho de votos”.

A pesquisadora Marize Cunha, fez observações importantes sobre abastecimento de qualidade. “Para o entendimento de abastecimento básico, a água tem que chegar na torneira; tem que chegar com frequência diária; tem que chegar com qualidade. Mais que um serviço, o abastecimento de água é um direito. Antes de servir os comércios e indústrias, tem que levar água as casas”. Explicou ela.

Desde a primeira oficina, onde o teleférico aparece como proposta do Governo – contrapondo as necessidades reais de mobilidade e a carência comunitária de um sistema de saneamento básico com qualidade em sua totalidade – até essa última oficina, foram debatidas questões que ferem a dignidade de uma população que está desiludida com o poder público.

A mudança do recorte temático na terceira oficina do Complexo do Alemão, serviu para reforçar o entendimento que, independentemente do tema discutido (saneamento básico, mobilidade e habitação) o eixo central da reflexão é o direito à moradia. Morar com dignidade,  morar com saúde e morar amparado pela justiça.

1 Vídeo gravado por Alan Brum do Raízes em Movimento, mostrando um pouco a dura realidade enfrentada por quem perdeu sua casa:

* Artigo produzido para o Territórios em Movimento pelo pesquisador do projeto e editor do blog Barraco Adentro, Cleber AraujoTerritórios em movimento é uma iniciativa do LTM (Laboratório Territorial de Manguinhos) da Ensp (Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz), em parceria com o Instituto Raízes em Movimento – situado no Complexo do Alemão – e a TV Tagarela, da Rocinha. Resulta de projetos desenvolvidos, que estudam e debatem os problemas dos territórios que receberam grandes intervenções do PAC Favelas: Complexos do Alemão, Manguinhos e Rocinha.

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